Na minha interpretação de adolescente eu sempre via os Hobbits como crianças ou simplesmente personagens maçantes. Os anões me lembravam judeus gananciosos e eram também muito maçantes. Suas regras eram legais e Moria era um lugar koshervilhoso, mas eu odiava a ganância deles – e, além de tudo isso, quem é que deseja ser pequeno? Os elfos eram fascinantes, belos e, principalmente, sua imortalidade e proximidade da natureza eram características interessantes, mas eles eram um pouco burros e lutavam pelo lado errado. Então eu senti uma atração natural por Sauron, que era a pessoa que, antes de tudo, dava ao mundo aventura, adversidade e desafios. Seu Olho, seu Anel e a torre de Barad-Dur são atributos similares aos de Odin [N.: Deus dos deuses na mitologia nórdica]. O Olho de Sauron era como o Olho de Odin, o Anel de Sauron era como o Anel de Odin, Draupnir ("O Emissor"), e Barad-Dur era como o trono de Odin, chamado Hliðskjálf ("Local de Rituais Secretos"). Seus Uruk-Hai e Olog-Hai ("Raça dos Trolls") eram como guerreiros vikings, os Warges eram como lobisomens criados por Odin, e assim por diante. Eu podia me identificar facilmente com a fúria das “forças das trevas” e me satisfazia com a sua existência, porque eles tornavam um mundo pacífico e chato mais perigoso e interessante.
Também cresci lendo tradicionais contos de fadas escandinavos, nos quais deuses pagãos eram apresentados como criaturas “malignas”, como "trolls" e "goblins", e todos sabemos como a Inquisição transformou Freyr (Cernunnos/Dionísio/Baco et cetera) [N.: Deuses associados à fertilidade e aos prazeres] em "Satã". Tolkien não foi melhor do que eles. Ele transformou Odin, Sauron e meus ancestrais pagãos nos guerreiros Uruk-Hai. Para mim, as “forças das trevas” atacando Gondor eram como os Vikings atacando a França cristã de Carlos Magno, as “forças das trevas” atacando Rohan eram como os Vikings atacando a Inglaterra cristã. E devo acrescentar que os vikings acabaram perdendo essas batalhas, assim como Sauron e os orcs – mas não me importo em apoiar o lado derrotado quando ele é o certo no fim.
Mais alguém compartilha esse sentimento, ou só eu fui autista o bastante pra distorcer a obra de Tolkien a tal ponto?